
Jorge Jesus comandará, nesta quinta-feira (1), Portugal em confronto com a Dinamarca, pela 3ª rodada do grupo D da Nations League. Negociações que se arrastaram durante mais de quatro meses, entre o final de 2024 e o início de 2025, no entanto, poderiam ter levado o treinador para longe do continente europeu e do centro da polêmica com Cristiano Ronaldo nesta Data Fifa. Mais especificamente para Calcutá, na Índia, onde a Seleção Brasileira enfrenta a equipe local no próximo sábado.
As conversas aconteceram entre o próprio Jesus e a cúpula da CBF, então comandada por Ednaldo Rodrigues, tão logo o presidente da confederação brasileira amadureceu a ideia de demitir Dorival Júnior. Com a eliminação precoce da seleção na Copa América nos Estados Unidos e um desempenho irregular no segundo semestre de 2024, o plano era claro: buscar um nome para o comando do time canarinho.
Ainda em dezembro daquele ano, mesmo com Dorival Júnior no cargo para a Data Fifa de março de 2025, dois dirigentes da CBF foram a Portugal, a pedido de Ednaldo, conversar pessoalmente com Jorge Jesus. Mesmo sem um acerto imediato no radar, o papo foi considerado extremamente positivo. A ideia era ter um acordo verbal com o português para que a Seleção não perdesse tempo após consumar uma demissão que já se desenhava óbvia.
Então treinador do Al Hilal, Jesus apenas ponderou aos interlocutores brasileiros que precisaria cumprir a missão com o clube saudita na Champions League Asiática. A CBF entendeu que o prazo era razoável, uma vez que a Seleção não teria outro compromisso antes do meio do ano – após a Data Fifa de março.
Com a goleada por 4 a 1 sofrida para a Argentina, em Buenos Aires, o cenário estava desenhado. Ednaldo substituiria Dorival por Jesus. Um contato após o jogo contra os “Hermanos” no Monumental de Nuñez reforçou o acordo verbal selado em dezembro. O então presidente da CBF, no entanto, não imaginava que teria que acelerar a troca em uma tentativa de sobrevivência política. Com a “corda no pescoço” em processo que corria no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro e ameaçava seu mandato, o cartola entendeu que só um movimento de grande apelo popular poderia lhe dar um fôlego em uma briga de bastidor quase perdida. Começava ali, no início de abril de 2025, o desespero de Rodrigues.
Além da definição da data do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade 7580 que questionava sua eleição, uma petição juntada ao processo solicitava o afastamento imediato de Ednaldo Rodrigues por identificar a falsificação de uma assinatura num documento da janeiro de 2025 que concordava "encerrar todos os litígios existentes" na ADI 7580 e lhe dava tranquilidade para comandar a CBF.
Pressionado na Justiça, Ednaldo levou a intranquilidade para as negociações que visavam definir o novo comandante da Seleção em campo. E fez uma substituição: sacou a ideia inicial, Jorge Jesus, que não conseguiria se desvincular do Al Hilal antes do início de maio, e acionou um antigo plano: Carlo Ancelotti.
Após acordo frustrado com o treinador italiano em 2023, Ednaldo aproveitou o mau momento de Carleto no Real Madrid e retomou uma antiga conversa. A ideia era por um acerto rápido. E assim ele foi feito. Em silêncio, Ancelotti sinalizou que toparia reconstruir aquilo que não foi para frente dois anos antes. Pediu apenas umas semanas para que o anúncio oficial fosse feito.
O treinador não queria um alvoroço maior antes da final da Copa do Rei, prevista para 26 de abril daquele ano, quando foi derrotado para o Barcelona e praticamente selou sua saída do Real. Mas o acordo com a CBF já estava fechado.
A essa época, Jesus já era passado para Ednaldo. Com tudo alinhado com Ancelotti, o anúncio era questão de tempo. Rodrigues esperaria o final da temporada de LALIGA, em 24 de maio, para oficializar o desfecho da novela. Novamente o desespero na busca por fôlego político, no entanto, antecipou tudo.
Na manhã do dia 12 de maio, uma segunda-feira, pressionado pela informação de que sua manutenção à frente da CBF poderia ser julgada a qualquer momento pela Justiça do Rio, Ednaldo entrou às pressas na sede da confederação, convocou integrantes do departamento de comunicação e ordenou que fosse escrita uma nota confirmando Ancelotti como técnico e a produção de um vídeo para falar sobre o tema.
O fato pegou até mesmo os dirigentes mais próximos a Ednaldo e gente do Real Madrid envolvida nas conversas de surpresa. No texto, Ednaldo valorizava o feito de acertar com um grande nome do futebol mundial e sua chegada para 26 de maio. O desespero do presidente, no entanto, se justificava. Três dias após o anúncio, ele foi afastado da CBF em decisão do desembargador Gabriel de Oliveira Zéfiro, da 19ª Câmara Cível do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro). Saiu para nunca mais voltar. E nem sequer chegou a receber Ancelotti pessoalmente.
As semanas seguintes foram de intervenção, correria e uma eleição que confirmou Samir Xaud como novo presidente da CBF. Eleito na manhã do dia 25 na sede da entidade, o cartola recebeu Ancelotti à noite em hotel próximo da confederação, na Barra da Tijuca, zona oeste do Rio de Janeiro, mesmo local da apresentação oficial, no dia seguinte.
De lá para cá, Ancelotti teve seu contrato, inicialmente previsto até a Copa do Mundo de 2026, renovado pela gestão de Xaud até o Mundial de 2030 e comandará o Brasil contra a Índia no sábado, em amistoso em Calcutá.
Já Jorge Jesus, que nunca escondeu a frustração por ter sido largado por Ednaldo e desperdiçado o sonho de comandar a Seleção Brasileira, assumiu o comando de Portugal após a Copa do Mundo de 2026 e se divide entre elogios que já recebe pelo trabalho recém-iniciado em campo e a polêmica por praticamente encerrar o ciclo do ídolo Cristiano Ronaldo com a camisa lusa.
Dinamarca (F) - 01/10, 15h45 (de Brasília) - Nations League
Noruega (C) - 04/10, 15h45 (de Brasília) - Nations League
Dinamarca (C) - 14/11, 15h45 (de Brasília) - Nations League