
Outubro de 2012. Em casa em Cuiabá, Izaura Rizo, uma mãe solo, recebia a ligação que mudaria para sempre a sua vida. Do outro lado da linha, um representante do São Paulo anunciava a aprovação de um de seus filhos, Walce da Silva Costa Filho, nos testes para jogar na base tricolor. Era o início de uma história que misturava esperança, dor e superação pelo Brasil afora.
Neste sábado (19), quando São Paulo e Internacional entrarem em campo a partir das 21h (de Brasília) no Morumbis, Izaura e Walce certamente reforçarão a torcida daqueles que esperam por dias melhores da equipe dentro e fora de campo. Mais do que isso, reviverão um sonho que segue vivo na rotina da família.
Revelado em Cotia, Walce permaneceu quase dez anos no Tricolor até ser promovido ao profissional. A ligação de 14 anos atrás, no entanto, ainda o acompanha na memória. "Conversaram com a minha mãe para que ela entendesse que seria uma mudança segura, para melhor. Minha mãe cuidava de mim e dos meus dois irmãos, além do meu irmão que acabava de nascer. Para ela também foi uma forma de ajuda, porque era um a menos para se preocupar, no bom sentido. Então, essa porta foi aberta e eu consegui agarrar", lembra.
Em maio de 2019, Walce foi chamado por Cuca para estrear entre os profissionais. O sonho de calçar as chuteiras e pisar no gramado do Morumbis estava encaminhado. A missão? O Flamengo de 2019, ainda sob o comando de Abel Braga.
"Ele [Cuca] foi o cara que realmente acreditou em mim. Lembro até hoje, numa preleção antes do jogo contra o Flamengo. O Igor Vinicius estava suspenso e ele reuniu o grupo e falou: vamos iniciar esse jogo com o Walce na lateral. A galera até olhou estranho, porque basicamente eu subi como zagueiro. Só que como ele sabia da minha versatilidade, ele olhou para mim e falou: você está pronto?", conta o defensor, que ainda atuou em outras duas posições naquele empate em 1 a 1.
"Eu fiz como lateral, depois ainda joguei 15 minutos de volante e terminei como zagueiro. Então, pude mostrar um pouco a mais daquilo que eu pretendia num jogo de estreia, foi muito marcante. O tempo se passou, depois do quinto jogo, o Cuca me chamou, teríamos o Cruzeiro, e ele comentou que pretendia usar um zagueiro mais experiente, porque estávamos vivendo uma fase muito difícil e ele não queria atribuir os resultados negativos a quem estava começando. A gente acabou perdendo esse jogo de 1 a 0 e o Cuca saiu do clube", completou o zagueiro, que já forjava a trajetória na capital paulista.
"Minha vida foi feita dentro de São Paulo. Tudo que aprendi como homem, a criar responsabilidades, aprender a fazer tudo aquilo que precisa ter para sobreviver na sociedade, foi aprendido ali. A estrutura na base dos atletas é algo realmente fora do mundo que existe no futebol brasileiro. Na minha época, eles disponibilizavam psicólogo, então uma vez por semana a gente tinha que passar com o psicólogo em grupo e individual. A gente tinha reforço escolar, por exemplo. Então, tudo isso era para que a gente pudesse se desenvolver como pessoa", exaltou.
O sucesso da jovem promessa não passou despercebido. Ainda em 2019, o então técnico da Seleção Brasileira, Tite, o convocou para participar dos treinos com o time principal. Além disso, enquanto no futebol nacional clubes já apresentavam uma oferta oficial para tirar o zagueiro do São Paulo, fora do país o papo era com gigante europeu.
"Na virada de 2019 para 2020, o Red Bull Bragantino mandou uma proposta e eu tinha acabado de me integrar na Seleção Sub-23 pré-olímpica. Na época, os meus empresários estavam tratando com eles. O que me passaram quando eu voltei para o São Paulo era que eles iriam segurar, porque o Arsenal também veio com uma proposta. Eles queriam esperar o início da competição sub-23 para dar andamento ao processo contratual e tudo mais. Só que é exatamente na semana em que tudo isso estava acontecendo que eu acabei tendo a minha lesão, e aí tudo se esfriou, foi por água abaixo. E veio a pandemia logo em seguida, então as coisas foram se afastando, porque a minha lesão acabou percorrendo mais tempo do que deveria", lembra.
Convocado pela primeira vez, Walce era um dos líderes da seleção que disputava um lugar nas Olimpíadas de Tóquio. No entanto, rompeu o ligamento do joelho esquerdo e precisou deixar a concentração de cadeira de rodas. Depois de passar por uma cirurgia, ele viu da televisão a homenagem de Matheus Cunha e Bruno Guimarães, que levaram uma camisa do Brasil com seu nome após a conquista da vaga, em fevereiro de 2020.
Oito meses depois, outra notícia abalou o defensor e sua família. Após apresentar sinais de instabilidade articular, uma nova cirurgia seria necessária. A recuperação, que inicialmente seria de até um ano, ganhou um capítulo ainda mais dramático em junho do ano seguinte, após um exame detectar uma insuficiência do enxerto, o que exigiu um terceiro procedimento cirúrgico e adiou outra vez os planos de um retorno.
"Sempre falo que o que passei se tornou meu testemunho de vida. Onde vou, testemunho isso para os outros atletas, para verem que realmente sou um cara que sobrevivi a algo que era inimaginável ter tido vitória. Pelas complicações ao longo do tratamento, que deveria ter sido um ano de pausa até voltar, foram praticamente dois anos e sete meses. Nesse tempo, eu tive muito mais oportunidades de parar de jogar, de desistir, de realmente abandonar o futebol e começar uma nova trajetória, qualquer coisa que fosse agregar para o meu futuro, do que realmente continuar", admitiu.
Durante a recuperação na pandemia, a família de Walce voltou a ganhar protagonismo em sua vida. Dessa vez, em Goiatuba, Goiás. "Eu estava morando no interior com a minha mãe e o meu irmão estava se formando em fisioterapia, por coincidência. Ele que acabou tendo que fazer o tratamento diário comigo. Então, todos os dias os fisios do São Paulo ligavam às 9h para ele e a gente iniciava o tratamento, só que totalmente diferente, porque em casa eu não tinha essa estrutura, aparelhagem, as coisas que eram necessárias para que eu pudesse ter um tratamento que gerasse um resultado mais rápido, mas o meu irmão foi um cara que fez de tudo e mais um pouco para me ajudar", destacou.
Além de seu irmão, o defensor também não se esquece de velhos companheiros. "São pessoas que me ajudaram muito no dia a dia, que a gente considera ídolos. Você vê a história que o Luciano tem, o Calleri, baita jogadores que são, mas também como seres humanos, pessoas que merecem ser respeitadas. O Luciano já passou por esse tipo de lesão e ele voltou, deu a volta por cima. Ele foi um dos caras que sempre me deram força, vivia a minha luta, vivia a minha dedicação e dizia que o tempo seria meu melhor amigo, que não deveria me desesperar. Aprendi muito com eles. O próprio Calleri, recentemente, falou para mim que eu sou a referência dele nesse quesito de motivação, porque me via e parecia que eu nunca havia passado por uma lesão, que estava sempre bem", contou.
Depois de deixar o São Paulo, Walce ainda passou por Santo André e Retrô até chegar ao Ypiranga, onde disputou a Série C de 2026. Aos 27 anos, o zagueiro se mantém de pé como numa canção do Clube da Esquina, composta por Milton Nascimento, Márcio Borges e Lô Borges em 1972. Afinal, sonhos não envelhecem.
"Meu maior objetivo é poder voltar a vestir a camisa de São Paulo. Estou muito mais experiente do que eu estava com 20 anos, quando eu subi. Mas a gente tem que construir conforme a realidade. Hoje, estou vivendo um passo de cada vez, trabalhando, me preparando, e tenho certeza que quando eu tiver essa oportunidade, vou realizar os meus maiores sonhos dentro do futebol, entrar dentro do Morumbis lotado, com a torcida, e sair com a vitória para contemplar toda essa trajetória que foi pausada, porque não vou colocar como um fim, porque realmente creio que os sonhos foram feitos para serem realizados, independente do tempo", concluiu.
Internacional (C): 19/09, 21h (de Brasília) - Campeonato Brasileiro
Santos (C): 02/10, 20h (de Brasília) - Campeonato Brasileiro
Cruzeiro (F): 07/10, 21h30 (de Brasília) - Campeonato Brasileiro