No futebol brasileiro, as casas de apostas se tornaram uma das principais fontes de dinheiro para os clubes nos últimos anos e ajudaram a inflar os valores dos contratos de patrocínio. Agora, com a saída das bets do futebol, surge uma questão: o que acontece com um mercado que aumentou seus gastos contando com receitas que podem deixar de existir?
O impacto da possível perda dessa fonte de receita fica ainda mais evidente diante do atual cenário financeiro dos clubes. De um lado, os 20 maiores clubes do país registraram receitas recordes e movimentaram R$ 15 bilhões em 2025, com R$ 3,2 bilhões vindos do marketing. Do outro, o endividamento chegou a R$ 16 bilhões e os custos com futebol alcançaram R$ 11,6 bilhões, crescimento de 30% em apenas um ano.
A ESPN reuniu especialistas do mercado esportivo de diferentes âmbitos para entender o que pode acontecer a partir de agora com times e campeonatos.
Para Amir Somoggi, diretor da Sports Value e especialista em gestão e negócios do esporte, a resposta passa pela existência de valores praticados dentro do mercado que não condizem com a realidade. Esse cenário pode ser traduzido como uma espécie de “bolha”.
"Eu não tenho a menor dúvida que há uma bolha no futebol brasileiro, esses custos com futebol muito alavancados por altos salários, mas também por altas contratações, os clubes nunca contrataram tanto", afirmou à ESPN.
Segundo Somoggi, o problema não está apenas no crescimento das receitas, mas no descompasso entre o que os clubes arrecadam e o que gastam. Ele também aponta a chegada das SAFs como um dos fatores que contribuíram para a aceleração dos investimentos em jogadores e salários.
O especialista ainda vê uma relação direta entre o crescimento dos patrocínios das bets e o aumento do endividamento dos clubes.
"Os clubes utilizam os vultosos contratos de patrocínio das casas de apostas como garantia bancária para antecipação de recebíveis, sujeitando-se a taxas de juros elevadíssimas. Portanto, paralelamente ao incremento das receitas, houve um crescimento do endividamento devido a esses contratos", explicou.
Para Cesar Grafietti, especialista em finanças do esporte e um dos diretores da ANRESF (Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol), órgão criado para a implementação do Sistema de Sustentabilidade do Futebol Brasileiro, o primeiro efeito de uma saída das casas de apostas seria simples: dinheiro deixaria de entrar enquanto as despesas continuariam existindo.
"Você tem custos que correm todos os meses, salário, direito de imagem, custos das partidas. E uma parte importante da receita, que são essas receitas comerciais, deixa de entrar", afirmou.
O impacto não ficaria restrito aos espaços ocupados pelas marcas nos uniformes. As bets também estão presentes em placas de campo e nos pacotes comerciais das transmissões. Por essa razão, Grafietti estima que, com o fim da operação dessas empresas, o impacto para os clubes pode chegar até R$ 2 bilhões em 2027.
A dimensão do problema, porém, varia de acordo com a situação financeira de cada clube. O analista cita o Flamengo como exemplo de uma equipe que perderia uma quantia significativa, mas teria mais ferramentas para absorver o impacto.
"O Flamengo está preocupado porque a gente está falando de uma receita direta de cerca de R$ 200 milhões por ano, mais as placas, mais o que impacta a TV, o Flamengo certamente teria um impacto, grosso modo, aqui perto de R$ 300 milhões", disse.
Por outro lado, clubes que já operam com déficit e possuem dívidas elevadas teriam menos margem para absorver a perda e no curto prazo sofreriam consequências drásticas em seus orçamentos e fluxos de caixa.
"Quando você vai para o Corinthians, você vai para o São Paulo, você vai para clubes que já têm uma situação mais difícil, o impacto é brutal. Porque você está falando que eles estão perdendo provavelmente de 10% a 15% da receita anual", afirmou Grafietti.
O problema é que não basta retirar as bets. É preciso encontrar quem ocupe o espaço deixado por elas, e os especialistas não enxergam uma substituição imediata dos valores.
Fabio Wolff, especialista em marketing esportivo e patrocínios e sócio-diretor da Wolff Sports, afirma que o mercado nunca havia trabalhado com contratos tão altos.
"Não estamos falando de patrocínios pequenos, estamos falando de patrocínios grandes, relevantes, que no final das contas acabam auxiliando em contratações, em formação de elenco, em contratações de atletas estrelados, de investimentos nos clubes", afirmou.
Para Wolff, entretanto, o futebol brasileiro também precisa olhar para dentro e entender por que grandes marcas deixaram de ocupar os espaços que hoje pertencem às casas de apostas.
Na avaliação dele, o problema não é simplesmente a falta de dinheiro disponível no mercado.
"Eu sou do pensamento que nós não produzimos um número razoável de cases através de patrocínio em clubes de futebol", explicou.
Segundo Fabio, os clubes precisam demonstrar aos patrocinadores que conseguem gerar negócios, e não apenas exposição de marca. "É menos sobre visibilidade e é mais sobre negócio", resumiu.
O especialista cita como exemplo a possibilidade de um banco substituir uma casa de apostas como patrocinador. Para ele, não faz sentido dizer que o setor financeiro não teria capacidade de investimento para competir com as bets.
"Não falta dinheiro. Tem muitos que falam assim, ‘mas é impossível você concorrer com casas de apostas’. Mas por que é impossível? Tem várias casas de apostas que não chegam nem perto do faturamento de bancos", afirmou.
Desde que a medida provisória decretou o fim das operações de empresas de jogos de azar, tem se discutido um possível socorro aos clubes por parte do governo federal.
Havia, inclusive, um encontro marcado entre clubes, federações e a União, para debater possíveis caminhos para os times das séries A e B do Brasileirão. Mas a reunião foi cancelada.
Logo no início de todo o processo, chegou a repercutir a informação de que haveria uma linha de crédito criada para apoiar as equipes afetadas por parte do BNDES. Entretanto, o banco rapidamente se pronunciou, negando o boato.
Em nota, afirmou que “não participou de qualquer discussão ou debate externo ou interno sobre a possibilidade de financiar clubes de futebol. O Banco possui vedação estatutária para realizar financiamento para clubes. Portanto, não procede a informação de que o BNDES irá operar uma linha subsidiada para esse público”.
Apesar de não haver medidas desse teor definidas, Cesar Grafietti afirma que essa não seria a solução, mas entende que deve haver algum tipo de compensação, devido à velocidade com que tudo foi feito.
“A solução é, eventualmente, o governo, sim, entrar com um pacote de ajuda, buscando patrocinadores, buscando benefícios para patrocinadores entrarem no futebol, já que a ideia é, de alguma forma, recompensar ou compensar a saída das bets. Então, talvez um benefício fiscal de patrocínio e tudo mais para quem é aportado no futebol fosse mais eficiente do que dar uma linha de crédito de vinte anos que depende de uma série de instrumentos para ser operacionalizada e cujo impacto é mínimo na conta do clube”, explicou.
Somoggi também vê o dinheiro das bets como um fator que distorceu o mercado de patrocínios.
"O patrocínio das empresas de apostas esportivas constitui um fenômeno artificial. O investimento praticado por esse setor excede desproporcionalmente o valor de mercado, criando uma dependência nociva, um 'vício' financeiro, que distorce a economia do futebol", afirmou.
Para ele, o crescimento de 42% das receitas de marketing dos clubes em 2025 não representa necessariamente uma evolução estrutural.
"Esse crescimento do marketing vem diretamente das bets. Se não houvesse esses contratos absurdos, um clube faturava trinta, agora fatura duzentos. Um outro faturava vinte, agora fatura cem", disse.
A consequência é que uma eventual saída das empresas não atingiria apenas a receita futura. Os clubes também precisam lidar com uma estrutura de custos construída durante o período de expansão dos contratos.
"Embora a perda de patrocínios desse porte impacte o fluxo de caixa, é um desafio superável, visto que o futebol nacional prosperou anteriormente sem esse modelo de negócio. O entrave central reside na estrutura de custos atual", explicou Somoggi.
Uma outra perspectiva abordada por Fabio Wolff, é em relação a imagem do mercado brasileiro perante a investidores, principalmente os internacionais.
“Você não pode, em janeiro de 2025, aprovar um mercado, sair arrecadando com as licenças. E arrecadou-se muito, por sinal. De repente, meses depois, você fala que não, espera aí, o que você aprovou não vale mais e você vai banir o mercado? O que é isso? Que segurança jurídica nós temos? Isso acaba gerando uma imagem ruim do país”, alertou.
A saída das bets também reacende uma discussão antiga: por que empresas como Coca-Cola, Pepsi, Samsung, Kia e outras grandes marcas internacionais deixaram de ocupar os principais espaços dos clubes brasileiros?
Para Wolff, o futebol precisa melhorar a entrega comercial aos patrocinadores, através de ativações que sejam além de exibição em camisas e materiais de redes sociais.
"Se a gente estivesse fazendo um trabalho muito profissional, muito bem feito, eu te diria que esses patrocinadores eventualmente iriam para outros espaços no uniforme", afirmou.
Grafietti acrescenta outro fator: o alcance internacional dos clubes brasileiros. Segundo ele, grandes marcas internacionais passaram a concentrar seus investimentos em competições e propriedades com alcance global, enquanto a maior parte dos clubes brasileiros ainda possui exposição predominantemente nacional.
"Como ele não tem distribuição internacional, as marcas também não têm interesse em expor a sua marca, porque ela não vai para lugar nenhum. Ela só vai para o mercado interno", explicou.
Somoggi, por sua vez, entende que os clubes precisam explorar melhor suas próprias marcas, inclusive no mercado internacional.
"Além de estreitar o relacionamento com os 200 milhões de brasileiros, o país possui a oportunidade de acessar uma base de mais de 4 bilhões de fãs de futebol ao redor do mundo", afirmou.
Independentemente da discussão sobre o futuro das bets, os especialistas concordam que o futebol brasileiro terá de lidar com uma mudança no modelo de receitas.
Para Grafietti, o momento pode acelerar uma discussão sobre uma liga de clubes, justamente porque a perda de uma fonte importante de dinheiro pode obrigar as equipes a buscar soluções coletivas.
"Quando você está em crise, é um momento propício para que todo mundo se junte e tente de alguma forma encontrar essas soluções", afirmou.
Somoggi vê a necessidade de uma mudança ainda mais ampla, com maior controle dos gastos e busca por receitas recorrentes.
O futebol brasileiro, portanto, chega a este momento com mais dinheiro circulando, mas também com mais despesas, dívidas e dependência de receitas que podem desaparecer.
A eventual saída das bets não cria todos esses problemas. Ela expõe o tamanho deles.E, se a "bolha" apontada pelos especialistas de fato começar a esvaziar, o futebol brasileiro terá de descobrir quanto de sua atual estrutura é sustentável sem o dinheiro que ajudou a inflá-la.