Ex-presidente do São Paulo, Julio Casares entrou na última segunda-feira (28) com uma ação contra o clube na Justiça para tentar reverter a acusação de "gestão temerária" e, consequentemente, anular sua expulsão do quadro associativo, ocorrida no dia 10 de setembro por ordem do Conselho Deliberativo tricolor.
Na petição, à qual a ESPN teve acesso, o ex-dirigente quer que o poder judiciário reconheça que sua gestão foi "regular, de boa-fé e aprovada pelos órgãos competentes", sustentando que "não houve gestão temerária, apropriação de recursos ou desvio de finalidade" e que as acusações contra ele "surgiram em um contexto de disputa política interna" no Morumbis.
Os advogados de Casares destacaram a eleição presidencial de 2020 e a reeleição de 2023, ressaltando a conquista de "títulos inéditos" pelo ex-mandatário, como a Copa do Brasil de 2023 e a Supercopa do Brasil de 2024. O documento também cita os troféus do Paulistão de 2021 e da Copinha de 2025, além do vice da CONMEBOL Sul-Americana de 2022.
De acordo com sua defesa, o ex-presidente trouxe "avanços comerciais e financeiros" ao São Paulo, como o acordo de naming rights do Morumbi (que se transformou em "MorumBIS"), além de "novos contratos de patrocínio" e da "reestruturação financeira" do clube.
A tese central da ação é de que Casares atuou sempre de "boa-fé" e "apoiado por profissionais especializados das áreas financeira, contábil, jurídica e de compliance". Segundo a petição, "eventuais decisões técnicas e classificações contábeis eram responsabilidade desses departamentos", e "não exclusivamente do presidente".
O ex-dirigente salienta que o Tricolor tinha, na sua gestão, "mecanismos de governança e compliance", com "auditoria independente". Ele ainda salienta que o Conselho Fiscal e Conselho de Administração da equipe acompanhavam suas contas, assegurando que "não houve dolo nem culpa grave por parte do autor".
A petição ainda enfatiza que as contas dos exercícios de 2021, 2022, 2023 e 2024 foram "aprovadas pelos órgãos estatutários do clube", acompanhadas inclusive "de pareceres favoráveis da auditoria independente, do Conselho Fiscal e do Conselho de Administração".
Segundo os advogados de Casares, essa aprovação "gerou o chamado quitus", ou seja, a "quitação e exoneração de responsabilidade sobre os atos de gestão daqueles exercícios".
Quanto às contas de 2025, que foram reprovadas pelo Conselho Deliberativo do São Paulo, a defesa de Casares diz que elas foram aprovadas pelos Conselhos Fiscal e de Administração, com a auditoria independente apenas apontando "ressalvas" e "pedidos de esclarecimentos".
O ex-presidente lembra que o clube tricolor "apresentou superávit de R$ 56 milhões" no exercício, com "redução da dívida em R$ 110 milhões".
Por todos esses argumentos, a petição sustenta que a reprovação das contas de 2025 teve "motivação essencialmente política", e não "técnica".
No documento, Casares também aborda a polêmica dos quase R$ 11 milhões sacados em dinheiro vivo entre 2021 e 2025.
De acordo com o ex-presidente, esse valor "representa uma parcela muito pequena do volume financeiro movimentado pelo clube". Ele também alegou que os recursos seriam "destinados a premiações", os chamados "bichos", além de "serviços operacionais e despesas promocionais".
Segundo a defesa, a prática de pagar o famoso "bicho molhado" já "existia em gestões anteriores" e "continuaria ocorrendo após sua saída". Um trecho da petição, inclusive, cita fala do atual executivo de futebol do São Paulo, Rafinha, para apoiar essa tese.
"A permanência do denominado 'bicho molhado' na própria gestão atual do SPFC confirma, de maneira particularmente contundente, que o pagamento de premiações em espécie não era uma anomalia atribuível ao autor, mas verdadeiro costume do futebol", diz o documento.
"Conforme amplamente noticiado, a atual gestão presidida pelo Sr. Harry Massis igualmente adotou o mesmo procedimento, por iniciativa do executivo de futebol Rafinha e com a concordância da Presidência. O próprio executivo (Rafinha) declarou: 'Já recebi dinheiro em espécie no São Paulo, no Flamengo, no Grêmio, no Coritiba. Em todos os clubes em que eu recebi. Isso faz parte do futebol. É o bicho molhado'", seguiu.
"Esta declaração possui especial relevância in causa porque demonstra que a entrega imediata de premiação em dinheiro constitui prática conhecida e disseminada em diferentes clubes brasileiros. Mais do que isso, evidencia que o próprio SPFC continuou a sacar e manusear dinheiro em espécie após a gestão do autor. É manifestamente contraditório, portanto, utilizar contra a administração anterior um procedimento que a gestão sucessora reconhece como usual, legítimo e funcional", complementou.
Casares ainda assegurou que "não existe prova documental" de que os valores sacados em espécia "tenham sido recebidos ou apropriados pessoalmente" por ele.