
A nadadora e medalhista olímpica Ana Marcela Cunha completou na quarta-feira (22) a travessia do Canal da Mancha, estreito que separa a Inglaterra da França. Em entrevista à ESPN, ela contou bastidores daquele que é o mais tradicional desafio das águas abertas e toda a preparação envolvida.
"Eu acho que foi uma travessia muito melhor do que a gente imaginou. Primeiro, porque a gente sabia do grande desafio que seria atravessar o Canal da Mancha. Ele é justamente emblemático e histórico, porque é muito difícil. E acho que a gente veio muito bem preparado para isso”, contou.
“São, aproximadamente, 34 quilômetros que ligam em linha reta a Inglaterra à França. Mas é muito difícil de conseguir nadar em linha reta", explica a atleta. “Então, o grande desafio era fazer o menor percurso possível dentro das marés, da correnteza e tudo.”
Ana Marcela nadou entre 42 e 43 quilômetros em 8 horas, 25 minutos e 29 segundos, o que é o recorde sul-americano para a travessia.
“São mais de 8 horas nadando. Não que isso seja tão fácil, não é isso, mas foi um dia muito bom para a gente. E acho que dentro de tudo planejado, sabe? Foi muito tranquilo, tudo muito dentro do que a gente imaginou. Nada fugiu das nossas expectativas, nada que poderia atrapalhar. E assim, chegar lá do outro lado, sair ali nas pedras… Foi a realização de um sonho de uma adolescente que sempre quis muito fazer o canal.”
A preparação de Ana Marcela para a travessia incluiu sair do Rio de Janeiro, onde mora, rumo a São Paulo, em busca de águas na temperatura que reproduzissem o Canal da Mancha.
“Fui para São Paulo, na represa Billings. Tem muitos triatletas que treinam ali nos finais de semana. E a gente fez um treino de 8 da noite a 8 da manhã, passou a madrugada nadando. Eu nadei também em Nogueira, que fica ali em Petrópolis, na cidade do Rio de Janeiro, numa piscina que é onde a água estava batendo entre 17 e 18 (graus). Eu fiquei 5 dias ali, um pouquinho antes de vir para cá. O Sesc de lá abriu as portas para que eu pudesse fazer esses treinos. Isso me ajudou muito para que eu chegasse aqui e já estivesse um pouco mais acostumada”, diz.
“Eu também fui duas vezes ali em Copacabana, dei uma nadadinha ali, tentando procurar água mais fria. E sempre rodando muito, em torno de 80 km na semana, justamente para trazer um volume bom para vir para aqui. Se você parar para pensar, 80 na semana… o 40 de uma vez só pegou mais”, brinca.
A atleta conta que, além de difícil, o Canal é um lugar “concorrido” e foram mais de dois anos de preparação. “São anos e anos treinando muito, nadei em outras provas muito parecidas em quilometragem, mas nada parecido com o que foi aqui. (...) Não tem data para daqui dois anos. Então hoje, se uma pessoa resolver fazer o Canal da Mancha, é só daqui três anos só. É um local que muita gente vem para fazer esse desafio. A gente nadou para 8 horas, mas tem gente que às vezes nada para 18 horas, 21 horas, sabe? Então são anos de treino.”
Ana Marcela equipara a conquista à medalha de ouro olímpica de Tóquio 2020, nos 10km da maratona aquática. “Eles se assemelham muito para mim, não só porque era sonho de criança, sonho de adolescente poder fazer o Canal. Eu acho que, ao longo dos anos, eu fui criando o sonho de ser medalhista e campeã olímpica. Então eu acho que eu consigo, de certa forma, olhar para esses dois títulos e ter uma mesma grandeza”.