“Tupi, Tupi é união, dos campeões, o campeão”. Os versos do refrão do hino são apenas um vulto do que o clube mineiro se tornou hoje. Se há exatos 10 anos o Alvinegro estreava na Série B do Campeonato Brasileiro com a esperança de chegar à elite embalado por décadas de títulos e acessos estaduais e nacionais, atualmente o Carijó nem em campo entra mais.
A desistência da disputa da Segunda Divisão do Campeonato Mineiro — terceira e última divisão no Estadual — é um marco do fundo do poço para o Galo Carijó, que se afundou em uma crise administrativa e financeira e aposta em um processo de Recuperação Judicial, suspenso na Justiça, para renascer das cinzas.
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Carijó vive pior momento da história do clube — Foto: Reprodução/TV Integração
O ge relembra os últimos anos do clube e mostra como o Alvinegro de Santa Terezinha, campeão da Série D do Brasileiro em 2011, seis vezes campeão do Mineiro do Interior e com outras conquistas em âmbito regional, deixou de ser assunto pelos feitos que alcançava em campo para se tornar tema recorrente nos tribunais e até mesmo nas páginas policiais.
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Tupi foi campeão da Série D do Brasileiro em 2011 — Foto: Antônio Carneiro
O Tupi fez boas campanhas e conquistou títulos importantes nas duas primeiras décadas dos anos 2000. Campeão da Série D do Brasileiro em 2011, ao calar o Arruda com uma vitória sobre o Santa Cruz, o Galo Carijó conquistou acessos à Série C, em 2011 e 2013, e à Série B em 2015.
Veja o especial do ge sobre o título de 2011
Além disso, a equipe foi campeã da Taça Minas em 2008 e do Mineiro do Interior em 2003, 2008, 2012 e 2018. Conhecido como Fantasma do Mineirão por ter vencido América-MG, Atlético-MG e Cruzeiro no Gigante da Pampulha em 1966, o Tupi também conquistou o título do interior em 1985 e 1987.
Na história, o clube contou com jogadores renomados, como o tetracampeão Muller e os atacantes Flávio Caça-Rato e Daniel Morais. O goleiro Tadeu, do Goiás, o meia Vina, ex-Fluminense, Ceará e Athletico-PR, e o lateral-direito Maguinho, atualmente no Operário-PR, também vestiram a camisa alvinegra.
No entanto, os títulos e as boas campanhas esconderam mazelas de um clube com problemas de estrutura e um grande passivo trabalhista e tributário, após sucessivas gestões que gastaram mais do que arrecadaram.
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Muller vestiu a camisa do Tupi em 2003 — Foto: Reprodução/TV Integração
A derrocada começou em âmbito nacional. O Carijó disputou a Série B em 2016 e acabou rebaixado com algumas rodadas de antecedência. A equipe foi comandada por Ricardo Drubscky, Estevam Soares e o pentacampeão Ricardinho, ex-meia de Corinthians, Santos e São Paulo.
De volta à Série C, o Tupi fez grande campanha em 2017, mas foi eliminado pelo Fortaleza nas quartas de final e ficou sem o acesso. No ano seguinte, o time caiu de divisão novamente.
Desta forma, a equipe disputou a Série D do Brasileirão em 2019 e foi eliminada logo na primeira fase. Desde então, o Galo Carijó não teve mais calendário nacional
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Alvinegro foi rebaixado no Mineiro em 2019, último ano em que disputou a elite — Foto: Raphael Lemos
No âmbito estadual, o Tupi disputou a elite do Mineiro pela última vez em 2019, quando foi rebaixado para o Módulo 2 com a pior campanha na primeira divisão.
Em seguida, foram três temporadas medianas na competição estadual, em que o clube não conseguiu sequer passar para a segunda fase. O Galo flertava mais com o rebaixamento do que propriamente com a parte de cima da tabela.
O Tupi começou 2024 bem, mas caiu de produção no decorrer do torneio e terminou a primeira fase com 10 pontos em 10 jogos, com duas vitórias, quatro empates e quatro derrotas. A campanha levou o Carijó ao quarto rebaixamento em oito anos.
A equipe chegou à Segunda Divisão do Campeonato Mineiro — terceira e última em Minas Gerais — para a temporada seguinte. A equipe até passou pela primeira fase, mas foi eliminado no Hexagonal Final e acabou sem o acesso.
Em 2026 a tendência era de que o Galo disputasse o torneio novamente. No entanto. o clube confirmou que não vai competir, já que o Alvinegro não tem garantias financeiras para montar a equipe e custear a participação após a suspensão do processo de Recuperação Judicial.
Os títulos e as boas campanhas esconderam mazelas de um clube com problemas de estrutura um grande passivo trabalhista e tributário após sucessivas gestões que gastaram mais do que arrecadaram, e um caos administrativo sem fim.
A “bomba” estourou na gestão de Eloísio Pereira de Siqueira, atual presidente. No entanto, os problemas não começaram com ele. A maneira como o dirigente assumiu o clube exemplifica bem o caos administrativo que tomou conta da agremiação nos últimos anos.
Tiquinho fazia parte da chapa vencedora das eleições de 2019, como vice-presidente financeiro. No entanto, com a saída de Edemir Miranda, meses após a posse, Tiquinho assumiu a vice-presidência geral do Alvinegro, que era presidido por José Luiz Mauler Júnior, o Juninho.
No entanto, o presidente da época não conseguiu concluir o mandato. Em meio a denúncias de supostas irregularidades, tanto na condução do clube como em relação a uma parceria que terceirizou a base do Tupi, José Luiz Mauler Júnior foi excluído do quadro de sócios do Carijó. O processo foi longo e teve a seguinte linha do tempo.
Além dos problemas administrativos, o Tupi se endividou muito, principalmente nos anos de conquistas. O passivo trabalhista disparou com diversos processos na Justiça do Trabalho a partir da gestão da presidente Myrian Fortuna, que dirigiu o clube em dois mandatos entre 2013 e 2019.
A crise financeira foi agravada na gestão de José Luiz Mauler Júnior, durante a pandemia da Covid-19. A falta de dinheiro impactou diretamente no campo, com derrocada esportiva citada anteriormente na reportagem.
Leia série do ge que denunciou o escândalo na base do Tupi em 2021
O Tupi soma uma dívida superior a R$ 24 milhões e enxergou na Recuperação Judicial o melhor caminho para a salvação da agremiação. Com interesse e o estatuto já aprovado para se tornar uma Sociedade Anônima do Futebol, o clube entrou com o pedido, aceito pela Justiça no fim de 2024.
O Alvinegro e Magnitude Participações Ltda., empresa interessada na compra da SAF, entendiam que a RJ era o caminho mais eficiente para tornar o clube solúvel com o equacionamento do passivo nas esferas cível, tributária e trabalhista.
No entanto, apesar da homologação da Recuperação Judicial em 2025, o processo foi recentemente suspenso pela Justiça, após credores contestarem o prosseguimento do regime e a presença do Estádio Salles Oliveira para viabilizar a sequencia do RJ.
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